Para além da amizade, a fraternidade. Sim, é isso que sinto com a ausência do Zé “Cochicho”.
Homem simples, de gesto nobre, como nobre seu caráter, amante de uma conversa saudosista. Em todos os momentos em que estivemos juntos, lado a lado, sentados ou a pé, em sua residência – à porta – sempre rebuscava em sua excelente memória algum fato interessante para contar de tempos atrás. E, isso, de certa forma imprimia em sua face rosada uma tremenda alegria, afinal, era uma recontagem de suas experiências pessoais desfrutadas quando muito jovem. Certa feita, contou-me que era amigo da família do ex-governador e ex-senador (já falecido) João Castelo, quando este, trabalhava no Banco da Amazônia e, sempre que viajava, o convidava para tomar conta da sua residência.
Zé “Cochicho” era uma biblioteca ambulante. Conhecia fatos históricos hilariantes da sociedade codoense no tempo em que os bailes eram carregados de rigidez. Sempre dizia para seu prazer que tanto a UAOC e o COC eram clubes de grande prestígio. Era o tempo da ‘brilhantina’, do cabelo longo, enfim, era também o tempo em que a moça não podia andar sozinha alta horas, pois seria considerada ‘desonrada’; tinha na verdade, que andar na “linha”, e sempre bem acompanhada. Não podia chegar tarde – depois das 10h00 – pois, era um ato de desacato com sérias consequências para a boa moça de família. Zé “Cochicho” vivenciou um dos períodos da história mais significativos, foi contemporâneo de grandes mudanças na civilidade moderna que se refletiu em nossa cidade: a liberdade, a onda paz e amor, enfim, ele viveu intensamente uma vida social com muito respeito e observância. Zé “Cochicho” deixa-nos órfãos de suas arretadas histórias e sua fantástica sobriedade.
Zé “Cochicho” foi um polivalente. Dedicou mais de trinta e cinco anos ao Serviço Público, aliás, aposentou-se e continuou a exercer seu ofício. Era um homem de envergadura. Conjugou como ninguém um nicho de amizade invejável. Sua casa era visitada por todos os políticos, granjeou respeito e, isto, o fez admirado pelos homens públicos que sempre o procuravam. E a última conversa que tivemos – antes de sua internação – foi com a presença do ex-prefeito José Inácio, era mais ou menos 18h30min, ali se encontrava também, a esposa do Zé dos Pobres – apelido ganho quando esteve comandando nossa cidade no final da década de 1980. Falávamos sobre a conjuntura política nacional, especialmente, o governo ilegítimo de Temer. Ao partir, ouvi a esposa do Zé Inácio dizer para o Zé “Cochicho”: “Você tem de comer, não pode ficar sem comer, viu? Depois a gente volta para visitar você, tá? Tchau”. Assim, foi a despedida da família Guimarães à figura ilustrada de Zé “Cochicho”. Isto ocorreu, há três semanas atrás!
Zé “Cochicho” deixa-nos um pouco mais triste, porém, tal tristeza transforma-se em alegria por saber que ele era um inveterado jogador da felicidade. Nunca o vi com seu semblante enrugado, sua testa franzida e a boca cerrada, para ele o principal sentido da vida era vivê-la com felicidade. Meu grande parceiro das tardes amenas, de olhar agudo e penetrante.
No momento em que sentava ao seu lado ele dizia quase que automaticamente: “tu viste ontem o que passou no jornal nacional sobre o Temer?” “E a mala de dinheiro”? “E os cinquenta e um milhões do Geddel escondida no apartamento”? “O nosso país está acabado, Jacinto!! Zé “Cochicho” gostava de debater a política e, ao mesmo tempo, tentava compreender todas as malandragens feitas pelos grandes picaretas de nossa triste republiqueta.
Por fim, faço essa ínfima homenagem por entender que ele contribuiu para nossa cidade não apenas como Servidor Público Federal, mas, sobretudo, como profissional da educação. Sim, Zé “Cochicho” foi por muito tempo mestre ministrando aulas de Matemática no Colégio “Magalhães de Almeida”, e, também, no Colégio “Codoense”. Ele também tentou seguir carreira política, contudo, na primeira disputa ao Cargo de Vereador ao ser derrotado, percebeu que aquele não era o seu verdadeiro mundo e, sim, a relação com a sociedade como um todo sendo apenas um cidadão comum e feliz.
Descanse em paz Zé e que Deus o ilumine, sempre!


2 Responses
Linda homenagem, belas palavras, dignas de um grande homem. Parabéns Jacinto, descanse em paz Sr. Zé Cochicho.
Bela homenagem, Jacinto. O Zé que me ensinou extrair raiz quadrada. Era meu professor de reforço nas férias. Um grande caráter,era o Zé.