
PASSOU a residir em Codó, desde os primeiros meses de sua vida, após o falecimento de sua mãe, trazida da Matinha por sua madrinha Filomena.
Dona Filomena, mulher trabalhadora, sabia enfrentar a vida em todas as situações. Não havia casado.
Criava a afilhada Maira Rosa com muito amor, carinho e afeto. Gostava de ajudar a todos que necessitassem como acontecia com o rapazinho Pedro.
Pedro crescera. Ajudava sua mãe adotiva numa pequena venda. Freqüentou escolas, estudou o necessário para viver, alfabetizou-se. Vivia sob as graças de Dona Filomena, da qual recebia orientação, ajuda e carinho.
Maria Rosa era outro capítulo na vida de Filomena, que a considerava como filha, pois a criara com toda a dedicação desde seus tenros meses de vida. Acompanhou o seu crescimento, avançou noite e noites com suas doenças infantis. Maria Rosa encontrava-se crescida com os seus sadios e vivos doze anos de idade.
Cursava o ginásio como boa e dedicada aluna. Ajudava sua mãe adotiva em serviços domésticos. Quando lhe sobrava tempo, auxiliava Pedro na quitanda. Ela o queria como a um irmão. Precocemente desejava ser professora.
Dona Filomena distribuía afeto e carinho, com seus setenta anos de idade, amava a todos. Extremamente bondosa. Agora, com Pedro já rapaz, vislumbrava um resto de vida mais calma e tranquila.
Havia mais preocupações com relação à educação de Maria Rosa. Haveria de vê-la formada, seria uma professora.
Todavia, a felicidade não vem completa, diz o adágio popular.
Pedro adquiriu novos hábitos. Aparecia em casa com amigos novos e atitudes esquisitas. Passara a chegar tarde da noite sem dar explicações. Fisicamente, foi definhando. Perdeu o cuidado com a aparência física, cabelos grandes, unhas e roupas sujas, deixou de tomar banho diariamente, exalando do corpo um odor desagradável.
Dona Filomena achou tudo muito estranho. Conversou com as amigas sobre o assunto, disseram-lhe que era assim mesmo, coisas da idade.
Mais tarde, a sua benfeitora veio a tomar conhecimento que Pedro havia-se juntado a um grupo de rapazes viciados em drogas.
Dona Filomena chamou-o à atenção, amigavelmente deu-lhe conselhos, mostrou-lhe as falhas em que estava incorrendo, não só sobre a saúde, como também, para com a sociedade. Pedro, simuladamente, de modos estúpidos, negou tudo, alegou ter maioridade, portanto era dono de sua vida.
As palavras grosseiras e insensatas de Pedro calaram profundamente no coração magoado, e Filomena evitou tocar novamente no assunto. Deixou Pedro à vontade, mesmo sabendo que das drogas adviriam grandes maléficios. Aguardava a todo o momento uma notícia fatal.
A cabeça de Pedro andava povoada de maus pensamentos. Achava a cidade pequena para largas passadas. Sentia vontade de viajar, sair à procura de outros lugares mais adiantados, centros deslumbrantes e grandiosos.
Aturdiam-lhe tais pensamentos, mas para a realização do seu intento, seria necessário algum dinheiro, o que não possuía.
Ocorreu a idéia de pedir à Dona Filomena o aumento de sua retirada na quitanda, o que não conseguiu de imediato, mas a promessa de obter em alguns meses.
Não atendido o seu pedido, Pedro frustado; redobrou o vício das drogas e passou a ingerir todas as espécies de bebidas alcoólicas. Foi a reposta que deu à sua mãe.
Pensamentos negros e obscuros passaram a persegui-lo. Via-se matando Dona Filomena, para roubar a pequena economia que com grandes sacrifícios esta conseguira juntar. Sabia onde estava o dinheiro, era só agir. Não deixaria vestígios que servissem de pistas para a elucidação do crime. Se fosse necessário, mataria também Maria Rosa. Bastaria, com antecedência, preparar o ambiente. Assim fez.
Pôs algumas peças de roupa numa mala. Tirou passagem na Estação Rodoviária para Bacabal, a fim de preparar um álibi. Disse em casa e a diversas pessoas que iria viajar. Vizinhos viram-nos sair de mala na mão. Despediu-se dos mais relacionados à sua pessoa, partiu.
À noite, quando a cidade dormia, consumou a sua estupidez. Afloraram os sentimentos brutais e ingratos. Entrou de mansinho na alcova onde dormiam, tranqüilamente, Dona Filomena e numa cama ao lado, com o um anjo, a menina Maria Rosa. A velha acordou assustada e perguntou: “Quem está aí?” Contou Maria Rosa, mais tarde. A resposta foram facadas no coração da velha, que morreu sangrando instantaneamente, ainda pronunciando as palavras: “meu filho, o que queres?”.
Maria Rosa soltou um grito de medo e terror. Nisto, Pedro deu-lhe algumas facadas, não mortais. A menina amedrontada sufocou a respiração o quanto pôde. Fingiu estar morta.
Pedro, enlouquecido, correu a uma pequena mesa, abriu uma gaveta e retirou de uma velha caixa de madeira os minguados e sofridos recursos, juntados com grandes sacrifícios por Dona Filomena. Saiu desesperado para não ser visto, dirigia-se com toda pressa ao seu esconderijo, cuidadosamente preparado em casa de um amigo do ramo da droga, que o acolheu com o fito de levar alguma vantagem financeira.
Na casa de Dona Filomena, não se cumpriu o costume corriqueiro. A quitanda que funcionava ao lado não abriu as suas portas. Os vizinhos estranharam esta mudança de atitude. Bateram na porta. Inútil. Não houve resposta. Ouviram, no entanto, gemidos mais nitidamente. Resolveram chamar a polícia. Os policiais arrombaram a porta da residência de Dona Filomena.
Foi um quadro de terror e de tristeza: Maria Rosa ensangüentada na cama, gemendo muito, Dona Filomena encontrava-se morta. Providenciaram imediatamente o transporte de Maria Rosa para um hospital, e as amigas trataram do cadáver e do sepultamento de Dona Filomena.
Como se avisaria Pedro em Bacabal?
A polícia começou as investigações. Deduziram que houve roubo, procedido de crime, por haver o bandido deixado a gaveta da mesa fora do lugar e papéis espalhados sobre a cama. A única pessoa que poderia prestar algum subsídio para o esclarecimento do delito seria Maria rosa, que se encontrava em coma. Restaria espera as suas melhoras.
O plano de Pedro, diante da resistência física de Maria Rosa, fracassou. Tencionara aparecer com ares de surpresa, fingindo-se inocente, maldizendo-se por não estar em casa para enfrentar o ladrão. O seu álibe havia fracassado. Pedro não apareceu, sabia que a menina estava se recuperando e com data marcada para receber a Polícia, com autorização médica. No dia do encontro com os policiais, Maria Rosa já se encontrava fora de perigo. Sentou-se na cama. Não foi necessário um longo interrogatório. Disse em delongas:
– Foi Pedro. Eu fingi que estava morta. Sentia tantas dores que nem conseguia chorar.
Foi o bastante. Os policiais saíram à procura de Pedro procuraram-no nos pontos freqüentados pelos viciados em drogas. Foram efetuadas diversas prisões. Houve vazamento de notícias pelos presos. Pedro encontrado foi levado para a delegacia local, reforçada a guarda, a fim de evitar o seu linchamento. O povo estava revoltado. Pedia a sua vida.
Após ocorrer o processo judiciário, o assassino foi condenado a cumprir a pena máxima.
Maria Rosa foi morar com uma família amiga, formou-se em professora. Casou-se, teve filhos e vive para o seu lar.
João Batista Machado. Escritor Codoense, poeta, pesquisador. Autor dos livros Codó, histórias do fundo do Baú e O imaginário codoense. Sócio fundador da Academia Codoense de Letras, Artes e Ciência – ACLAC e do Instituto Histórico e Geográfico do Codó – IHGC.

2 Responses
autor codoense João Batista Machado
bom dia gostaria de saber onde posso encontrar os livro do escritor Jõao Batista Machado 9O livro Codó) Codó história do fundo do baú.aguardo resposta obgda