
A virtude supõe uma disposição estável e uniforme de comportar-se moralmente de maneira positiva; isto é, de querer o bem. O seu oposto é o vício, enquanto disposição também uniforme e continuada de querer o mal (Sánchez Vázquez. Ética, 2017).
Desde tempos antigos os homens procuraram e, atualmente, procuram aprimorar suas virtudes associando-as aos valores supremos como a ética, a moral, a sinceridade e a honestidade. Entretanto, com a evolução histórica – os valores fundamentais que dão dimensionamento único para o homem conviver em harmonia com o outro e com os diferentes respeitando suas crenças e valores, culturas e comportamentos – tudo isso, passa a ter um significado relativista em que certos valores assumem características completamente deturpadas e, com isso, a sociedade como espelho eletrizante de sua história, perde a essência cristalina que orienta o homem na sua caminhada enredando satisfazer seu próprio ego doente. Para ele o que importa é o interesse, o objetivo pessoal, a realização de um sonho candente que o torne celebridade! E o recurso pertinente disponibilizado para sua concretude é a desonestidade. Este é o grande fetiche da humanidade contemporânea. Todos desejam, indistintamente, saborear, experimentar o prevaricado e místico sentimento da desonestidade. Raros são os homens que se abstêm de práticas tão sedutoras e entusiasmadas de filtrar atos ilícitos (ser desonesto). É a mais pura essência de um adágio popular que enleva a sedução e o desejo de querer ser tratado como tal: “cambalacho”. Podemos afirmar com letras graúdas em alto e bom som que tal encanto, sedução e desejo, não nos encanta não nos seduz e menos ainda, me apraz desejo violento e único para realização pessoal.
Parece-me que esta categoria submete o homem a uma espécie de transe interminável, em que desaparece o sentido da autopreservação de si mesmo, e o que deve imperar de forma mordaz é o sentimento do “vale-tudo”.
A categoria honestidade, por sua vez, não pode ser tratada como princípio supremo entre o eu e o tu – ou melhor, entre o homem e seu semelhante, pois ela o enfadonha e o faz sentir-se menor no contexto da convivência social. Tal situação faz o homem vilipendioso e mau-caráter apreciar a degeneração como mecanismo de defesa para sua sobrevivência nesse mundo ‘caótico’. Ora, a conjuntura ‘caótica’ o impele a deixar os processos naturais e necessários para assentar-se num patamar da mentira, do escárnio, e na dissimulação destruidora. Nesse contexto, o homem contaminado pelo egoísmo doentio, nunca enxergará o óbvio do inverso como necessidade básica indispensável para uma sociedade se desenvolver dinâmica e solidariamente. Do luxo para o lixo é apenas uma questão de estilo do sujeito que despreza a verdadeira fonte da boa moral e bom costume: a respeitabilidade entre eu e tu, e tu, e o outro. Há homens que se constrói sustentando sua aparente fragilidade pessoal na virtude da verdade, e há homens que jamais atingirão os projetos pessoais por estar profundamente antenados na/com a prática do mal.
É por demais intrigantes a antípoda relação da categoria desonestidade como símbolo valorizado entre quem quer o apogeu por meios escusos do que a honestidade como centro do equilíbrio e unidade do homem onde o predomínio da verdade seja o objeto objetivado.
Vivemos uma tumultuada crise social e identitária – onde a inversão de valores amplia-se demasiadamente – em que as verdadeiras demandas emergentes são escondidas para dar lugar a uma potente e cruel sinalização da desonestidade que opera para o lado contrário e, ainda assim, prevalece sua artimanha nefanda. A natureza compartilha de sua boa conduta e o homem descreve como é possível destruí-la com um discurso roto e amalgamo.
Os valores que estão sendo substituídos por outros na contracorrente da evolução histórica tem possibilitado o aparecimento da indolência como reflexo da incapacidade do sujeito de se situar ante uma determinada realidade. Ele prefere fugir à responsabilidade a assumir as consequências efetivas.
Para os fracos e covardes que se consideram como alpinistas sociais restam-lhes apenas uma saída: bajular o detentor de riqueza e sonhar a eternidade para obter uma migalha que o enobreça por pelo menos na representação social, pois economicamente, nunca deixará de ser um membro de uma casta inferior e como tal insignificante para o detentor de riqueza. Agora, trilhar o caminho do progresso e angariar autonomia social, o homem sincero e honesto deve optar por sua convicção e traçar sua trajetória pessoal com competência, sabedoria, coragem e, sobremodo, com desprendimento cultural.
O pior calhorda é o que finge te ajudar, quando, porém, te ajuda, sua ajuda será sempre pela metade e, desse modo, jamais obterás uma ajuda completa, que te alivie e te liberte da condição de miserável. O desonesto será para sempre desonesto consigo mesmo e para com o outro, pois toda sua vida foi constituída sob uma base mentirosa e falsa. O desonesto só vê a si mesmo diante do espelho! É um narcisista!
É preciso construir uma geração altiva e independente, livre da influência de homens gananciosos, mentirosos e desonestos. É preciso viver, lutar é morrer e morrer é um ato de amor e coragem e de solidariedade ao próximo! Combatamos os elementos desonestos que figuram como persona grata em nosso ambiente, porém, sua vida é cheia de trambiques, coloquemo-los no esquecimento da história e nunca façamos lembrar-nos deles!
